segunda-feira, 24 de novembro de 2014
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
quinta-feira, 24 de julho de 2014
sexta-feira, 20 de junho de 2014
sexta-feira, 18 de abril de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
Ética E Clínica No Autismo Infantil
“A queda dos ideais fez com que cada vez mais os resultados científicos passassem a ser usados como argumento de autoridade. Contudo, nem tudo pode ser mensurável, nem tudo pode ser convertido em evidência.”
Marcelo Veras
Após o nascimento o
sistema neurológico do bebê ainda está em formação. A percepção e reação aos estímulos externos
ocorrem sem que tenha consciência de si próprio, ou seja, ainda não se
reconhece como o sujeito de suas ações e sensações. No entanto, antes de nascer o filho já apresenta uma existência, quando é nomeado no desejo dos pais, ocupando um lugar no discurso familiar.
O nascimento em si é uma
crise primordial que se apresenta ao psiquismo, onde se instala a marca de uma
relação biológica interrompida. A placenta
como uma parte de si que perde ao nascer, assim como o seio materno em
sua função de corte, simbolizam o objeto perdido, instauram um vazio, um buraco
a ser preenchido de um objeto jamais reencontrado e sempre substituído. Jacques
Lacan fala de um reencontro com o signo de uma repetição impossível, como a
busca incessante no Outro do que falta em nós mesmos.
De acordo com Sigmund
Freud, ocorre uma perda da libido que induz o sujeito a buscar fora de si mesmo
uma completude. Podemos pensar no mal estar da civilização quando diz que o
prazer que se busca nunca será completo, pois sempre faltará algo. Isto nos
remete ao nosso mundo contemporâneo com a ilusão do corpo/imagem perfeita ou da
tal “felicidade”, ofertada pelo mercado, mas nunca alcançada.
A metáfora do espelho
é vital na constituição do sujeito, num circuito pulsional onde a imagem do
corpo vai sendo construída nas trocas corporais, gestos e na voz que o adulto
vai recobrindo de sentido. O desamparo de um recém-nascido para além do
orgânico é fundamentalmente um desamparo simbólico, quando começa a habitar
marcas, traços e caminhos oferecidos pelo adulto em busca de satisfação e reconhecimento.
Assim vai se introduzindo na cultura, constituindo sua subjetividade inicialmente
através do Outro primordial materno e, posteriormente, na interdição paterna representará a realidade, a relação no mundo.
Ocorre que no autismo
infantil este processo de constituição do psiquismo, nos primeiros anos de
vida, se encontra bloqueado numa blindagem que não torna possível a conexão e
relação com o desejo do Outro, defendendo-se da linguagem e do mundo. É como se não houvesse objeto perdido,
encontra-se restrito ao organismo biológico, com seu corpo constituído apenas
como uma superfície refratária a trocas, sem percepção de si e impossibilitado
de constituir um corpo pulsional.
Há uma recusa do
Outro, que é sentido como invasivo e ameaçador. Recusa do olhar, do alimento,
do corpo e principalmente da voz como uma trava em todos os circuitos
pulsionais, numa defesa incessante. Seus atos que aparentam não ter sentido, diminuem sua agitação
e angústia.
Em sua relação com os objetos não aparece o brincar, mas um manejo de encher e esvaziar que se repete de forma compulsiva, e as séries em um contato visual tão próximo que chega a colar com o objeto.
O mutismo não se relaciona a uma incapacidade fisiológica ou a um déficit, mas a uma impossibilidade de enunciação.
A criança apresenta-se como objeto de cuidados, fracassando em sua enunciação e não surgindo como sujeito do inconsciente.
Em sua relação com os objetos não aparece o brincar, mas um manejo de encher e esvaziar que se repete de forma compulsiva, e as séries em um contato visual tão próximo que chega a colar com o objeto.
O mutismo não se relaciona a uma incapacidade fisiológica ou a um déficit, mas a uma impossibilidade de enunciação.
A criança apresenta-se como objeto de cuidados, fracassando em sua enunciação e não surgindo como sujeito do inconsciente.
A causa é
desconhecida e o aumento de sua incidência na atualidade talvez possa
relacionar-se às mudanças na
subjetividade contemporânea. Os aspectos neurológicos apontados pela neurociência
permanecem apenas como uma possibilidade não demonstrada. O autismo não é localizado em exames de sangue ou cerebrais, pois o diagnóstico é clínico, nos sintomas que se apresentam.
Com o DSM-5 (2013), o
espectro autista se transforma em um transtorno do neuro-desenvolvimento, que
prioriza a adaptação cognitiva em detrimento da complexidade psíquica e apaga o
sujeito a ser trabalhado subjetivamente, visando especialmente a adequação do comportamento. O
efeito é a patologização da infância, epidemia diagnóstica de autismo, medicalização crescente de crianças e tratamentos adaptativos que automatizam o comportamento. Abordagem divulgada nas mídias, que propaga uma falha no cérebro que não está comprovada pela ciência, treinando crianças sem levar em conta as causas, os afetos singulares e o entorno familiar tão importantes para o tratamento.
Penso que a intervenção com crianças autistas deva partir das produções enigmáticas, sem
sentido, repetitivas que são formas próprias de sua tentativa de comunicação. A partir daí oferecer um espaço e tempo possíveis para
que se dê a possibilidade de uma construção psíquica infantil, que por alguma razão não se constituiu ainda.
É uma aposta ética na possibilidade do surgimento do sujeito/criança, em uma prática clínica que dê condições de poder encontrar saídas próprias para este estado e gerir as trocas de prazer/desprazer, inicialmente, com sua forma particular de inserção e relação no mundo.
Há um sujeito a ser escutado e reconhecido em seu modo singular de funcionamento, da expressão no corpo, humor e comportamento, revelando um sofrimento psíquico.
Uma criança a ser tratada, e não treinada para adaptar-se socialmente.
J. C.
Maleval cita em Étonnantes mystifications de la psychothérapie autoritaire: “(...)
Se insistem nas coisas que vocês consideram normais, encontrarão frustração,
decepção, ressentimento, inclusive raiva e ódio. Se se aproximam
respeitosamente, sem preconceitos e abertos a aprender coisas novas,
encontrarão um mundo que jamais imaginaram”.
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Manifestações de junho: publicidade de sentimentos em um novo tempo e espaço
"A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a
coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem,
a mudá-las." (Santo Agostinho)
"A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las." (Santo Agostinho)
Um
encontro de jovens do Movimento Passe Livre posicionando-se contra o aumento
abusivo das tarifas do transporte público à multidão que tomou as ruas,
chegando às portas do Congresso, surpreendendo o poder público que ao recorrer
à violência detona a indignação via redes sociais. O Estado num primeiro
momento de desorientação reprimiu, depois como estratégia temendo a rejeição
passou a incorporá-lo, investindo na ingenuidade da população com políticas públicas apressadas e a promessa de combate à corrupção. Os meios
de comunicação dominantes partiram do desprezo inicial ao desvirtuamento do
movimento, e por fim ao reconhecimento das reivindicações e da força da
população reunida.
Surpreende que em nossa cultura
capitalista individualizada, onde as relações sociais se encontram empobrecidas
e esvaziadas pela captura constante da imagem e das relações de consumo
imediatas, um movimento possa surgir com tanta força e de forma tão inusitada. A subjetividade coletiva lança uma faísca, formulando uma contrariedade ao ideal de perfeição e completude imaginária impostos pelo mercado no uso de um mal-estar constitutivo. Um corte se fez no gozo social, um ato que
faz uma reviravolta na rotina, numa mistura de angústia e coragem de renunciar
ao que se recebe e apontar na direção da carência do sujeito e do exercício da lei. Faz lembrar o mito da caverna de Platão onde uma multiplicidade de imagens substituem a realidade, quando as pessoas aprisionadas à caverna vêem sombras e efeitos que acreditam ser realidade.
A
entrada do sujeito na cena social carrega a insatisfação e o desejo como
elementos comuns. Mal-estar que gerou uma multiplicidade de reivindicações,
revelando a crise de representatividade do espaço político atual. Sem a
mobilização dos partidos ou sindicatos, sem lideranças, como uma massa anônima
de organização horizontalizada e sem identidade política. Em sua maioria,
composta por jovens que nunca viveram esta experiência, muitos, desconectados do passado de lutas pela democracia, mas sensibilizados às injustiças sociais.
A violência que deixou marcas no
corpo dos jovens é exercida e sentida também na maior parte da população com a
precariedade da saúde, educação, segurança e transporte que vivenciamos ou
assistimos todos os dias nas imagens e notícias já banalizadas pelos meios de
comunicação. O efeito foi um furo no
discurso e na ação dos que detém o poder público e o dever de propiciar o
atendimento à população na ordem da sobrevivência digna, negligentes com a
maioria dos cidadãos em seus direitos essenciais.
A identificação a um mesmo ideal
fez a conexão da esfera do particular para o movimento público de forma
instantânea, formando um grande laço social. Um limite ético, um ponto de
basta, uma declaração pública e em massa
que discorda e cobra outra forma de atuação político-econômica. Muitos
jovens não sabem como ou o que reivindicar, mas indignados e insatisfeitos querem
que seja diferente. Parece que a opacidade do passado e o sonho do país do
futuro veio dar lugar à indeterminação neste sintoma social que marca e
constrói a atualidade.
2013
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