sábado, 22 de janeiro de 2022

AUTISMO: QUANDO OCORRE LINGUAGEM, MAS A CRIANÇA NÃO FALA

 

Na 1ª infância, uma criança que não fala, ou demora a ceder sua voz na relação com as pessoas, mostra um sofrimento psíquico na dificuldade das trocas de prazer e desprazer, ao não saber como vivenciar o laço social. Permanece mais recolhida e com pouca comunicação, não articula palavras ou chama alguém para algo com sua voz própria.

Seu mundo costuma estar reduzido ao contato de quem o cuida, defende-se muitas vezes ao tampar os ouvidos rejeitando o contato do meio familiar e social, que é sentido como invasivo e ameaçador.

No entanto, apesar de não falar, a linguagem ocorre de forma não verbal através da expressão no corpo, que comporta sua subjetividade. 

Expressa gestos repetitivos, gritos, olhar, choro, birra, ou mesmo quando utiliza o corpo do outro, ao pegar a mão do adulto para alcançar o que quer, em um discurso onde não precisa utilizar a fala.

Ao não representar com palavras o que precisa e sente, permanece muitas vezes dependente como um "bebê grande". Assim, fica difícil separar-se desta completude em uma parceira fechada com um adulto ou objeto, resistindo a aceitar os limites e as frustrações da realidade, que a função do pai opera ao abrir espaço na dupla criança/mãe para o mundo.

Para que a criança se constitua subjetivamente é necessário abrir um espaço, uma separação ao não responder de forma imediata em uma relação corpo a corpo, onde acabamos por adivinhar o que a criança quer sem que precise usar a fala. Desta forma, tudo acaba vindo ao seu encontro sem que precise chamar, pedir, olhar e falar para acessar as pessoas.

Demarcar para criança de forma clara os limites no tempo e espaço cotidiano,  trocas afetivas, o olho no olho e  palavras que marcam ações são referências importantes na inserção social e familiar, com os pais juntos em parceria na relação com a criança. 


Ana Lucia Esteves

Psicanalista/Psicóloga

terça-feira, 20 de julho de 2021

SINTOMAS INFANTIS: UMA MENSAGEM


                                                                                                 Imagem: M. Boyayan  



    As alterações na infância e adolescência do humor, comportamento ou aprendizagem devem ser entendidos  como uma mensagem. Um aviso de que algo não vai bem, é como um pedido de acolhimento e  reconhecimento invertidos, em uma fase confusa. 

    Muitas vezes difícil de expressar com  palavras, aparece na quietude, irritação, isolamento, excessivo uso de tela, muito  sono ou sua falta.

    Neste sentido,  não cabem respostas rápidas ou mágicas para a resolução dos sintomas. O risco é  ter amortecida sua própria singularidade e subjetividade em um consumo precoce de medicamentos ou técnicas que não levam em conta seu  próprio "tempo de ver, entender e concluir".

    Estes obstáculos quando atravessados junto ao outro, com sua escuta e troca subjetiva, nos dá a chance de inventar  uma travessia possível.


Ana Lucia Esteves

terça-feira, 15 de junho de 2021

HEREDITARIEDADE, UMA POSSIBILIDADE NÃO COMPROVADA



Imagem: M.Boyayan

 


Não há comprovação científica de que o autismo, esquizofrenia, Alzheimer ou estados         depressivos sejam hereditários, ou seja, que sejam transmissíveis de pais para filhos. 

A hereditariedade é uma predisposição alterada pelo ambiente e não uma herança. A expressão dos genes vai depender da relação com o ambiente psicossocial, são multicausais em uma transmissão psíquica que muitas vezes não temos consciência.

Nos últimos anos vivemos um determinismo genético apoiado nas neurociências, que tem ocupado grande espaço na mídia veiculando a hereditariedade de doenças mentais e demências como uma certeza, mas sem evidências científicas.

A certeza de uma falha no cérebro ou na transmissão genética não se comprova, a não ser em caos raros, além disso nem todas as doenças genéticas são transmissíveis. 

Segundo a geneticista M. Katz (USP), o reconhecimento de possíveis predisposições genéticas não significa que a pessoa terá a doença. Existe um "DNA" social além do biológico, uma transmissão psíquica que passa de geração em geração. 

Para além do biológico, outros fatores como o ambiente sócio cultural e o psiquismo modificam a expressão dos genes. Lembrando o valor estruturante que a psicanálise dá às experiências infantis que marcam os primeiros anos de vida.

Construímos nossas identificações nos afetos, segredos, histórias familiares e traços subjetivos em nossa experiência de vida que nos apropriamos e repetimos, sem que possam ser medidos.

A consequência do determinismo biológico com seu viés ideológico na atualidade, é a impossibilidade da pessoa apropriar-se de sua história singular e implicar-se em seu destino, em oposição a uma certeza que de fato não existe.

"Quando uma prática não consegue se sustentar nos princípios de sua ética, se transforma no exercício de poder." J. Lacan (Psiquiatra, Psicanalista).



Ana Lucia Esteves,  psicanalista.
        
        
         

sexta-feira, 21 de maio de 2021

NOSSA SUBJETIVIDADE INFANTIL

 

                                     

O nascimento em si é uma crise primordial que se apresenta ao psiquismo, onde se instala a marca de uma relação biológica interrompida.

A placenta como uma parte de si que perde ao nascer, assim como o seio materno em sua função de corte, simbolizam o "objeto perdido", instauram um vazio, um buraco a ser preenchido de um objeto jamais reencontrado e sempre substituído.

Jacques Lacan, psiquiatra e psicanalista fala de um reencontro com o signo de uma repetição impossível, como a busca incessante no "Outro" do que falta em nós mesmos. 

Nossa subjetividade gira em torno desta falta e o que fazemos com ela.

De acordo com Sigmund Freud, ocorre uma perda da libido que induz o  sujeito a buscar fora de si mesmo uma completude. Podemos pensar no mal estar da civilização quando diz que o prazer que se busca nunca será completo, pois sempre faltará algo.  

Isto nos remete ao nosso mundo contemporâneo com a ilusão do corpo/imagem perfeita ou da “felicidade” total ofertada pelo mercado, mas nunca alcançada completamente, somente nos primórdios do nascimento.                                                       

Neste sentido, a falta é o que move nosso desejo e nos desafia diante da vida.                        

                           
                                        Ana Lucia Esteves. Psicanalista/Psicóloga

 

                                         

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Consultoria

INCLUSÃO: ASSESSORIA ESCOLAR


 
                                                                                                            Imagem: M. Boyayan
                            

    Suporte metodológico no autismo, psicose e dificuldades do aluno na aprendizagem, linguagem, humor, afetos e comportamento.

    A escola para além da transmissão de conhecimento cumpre a função importante de oferecer espaço de identificação social, na construção dos vínculos infantis e inserção cultural. Neste contexto é que vai acontecer todo processo de aprendizagem, envolvendo os aspectos cognitivos, psicomotores e psíquicos.

    A educação tem grande importância na construção da subjetividade infantil. Depois da família, a escola é o primeiro coletivo onde a criança se defronta com seus pensamentos, corpo e sentimentos próprios na socialização. Favorece a implicação do aluno nas produções de conhecimento, relações afetivas do coletivo escolar e  suas dificuldades.

    O professor é parte importante deste processo com suas expectativas, frustrações e investimento emocional, que necessitam ser acolhidos e reconhecidos na atuação pedagógica inclusiva. Não é simples para o professor deparar-se com os seus próprios limites e dificuldades, quando se encontra com os empecilhos na aprendizagem e comunicação de seus alunos, além do suporte pedagógico na orientação familiar.                                                          

    Cada aluno é um mundo, uma história com marcas e identificações construídas através do adulto, e portanto, com uma relação singular com o saber. Neste sentido, não só o reconhecimento dos défcits é importante, mas também das habilidades e interesses que auxiliem a criar uma metodologia específica para o aluno, que o envolva no processo de aprendizagem e socialização.



Ana Lucia Esteves - Psicanalista/Psicóloga



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 

                            O ESPELHO NA DEMÊNCIA



Com o avanço das perdas cognitivas de memória, percepção e representação simbólica das coisas e pessoas em seu cotidiano, a pessoa com um quadro de demência se encontra em um desamparo e dependência de um outro que o reconheça e localize sempre que possível.

É como uma desconstrução da estrutura  psíquica, onde o esvaziamento do sentido das experiências cotidianas e da noção de tempo vão se perdendo como se fosse uma parte de si mesmo fora de alcance. Perda gradual da própria identidade, chegando a não reconhecer sua própria imagem no espelho e apontar seu EU como um outro, situação que ocorre com certa frequência no Alzheimer, como recusa deste desencontro consigo mesmo.

Esta desconexão com a própria imagem no espelho na demência revela o desamparo que nos remete a constituição primordial do psiquismo humano no bebê, onde o outro que cuida é seu primeiro espelho, neste olhar que vem de fora reconhecendo para ele sua própria imagem inaugurando a noção do corpo.

Então além do espelho refletir sua imagem física, ele também te devolve a ideia que você faz de você mesmo, de qual é sua imagem perante o outro, que reflete a visão dos familiares, do grupo do trabalho, de um relacionamento afetivo sobre você. Na literatura o conto de Guimarães Rosa, " O espelho" diz: "O espelho, são muitos".

Uma essência para além da imagem, que mesmo diante da perda gradual da identidade do EU e do registro simbólico na demência, pode resgatar algo nas trocas subjetivas com o outro, sentindo-se menos perdido.

O familiar e/ou cuidador representa para a pessoa com demência, um importante canal de referência e reconhecimento, investindo no olhar e ações que possibilitem surgir traços de subjetividade e lampejos de lucidez. Conhecer melhor os sintomas da demência e construir estratégias de intervenção auxiliam a duas partes.

O idoso deve poder ter acesso ao espelho e ser reconhecido neste com palavras e gestos desde o início do processo demencial, e mesmo nos casos mais avançados, a não ser que esteja em crise, porque ainda tem um corpo capaz de sensações, difíceis de ser representados pela linguagem. É importante não afastar a possibilidade de que ainda se represente de alguma forma, nesta relação de identificação com a imagem, atenuando a progressão das perdas. Quando, por exemplo, vê a imagem da própria mãe no espelho, no lugar dele é como um apaziguamento, um encontro, que a construção delirante possibilitou que ocorresse. Ou uma resposta agressiva ao sentir-se perseguido pela própria imagem ao ver-se como um estranho no espelho, anulado, a mercê do outro invasivo ataca para se defender. É difícil presenciar falas sem sentido, mas é um recurso que temos para apaziguá-los psiquicamente, e se pudermos participar do delírio reconhecendo e resolvendo sua angústia, será ainda melhor.

Apesar de todas as perdas nessa desestruturação, esquecendo muitas vezes até do nome próprio, há um sujeito do inconsciente revelado nos pequenos gostos, na raiva, lágrimas e sorrisos que ainda podemos precipitar e compartilhar.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista



sábado, 9 de janeiro de 2021


 

LIMITES NA RELAÇÃO PAIS/FILHOS



A colocação de limites é essencial ao desenvolvimento infantil.
Não se trata somente de fazer obedecer, são pontos de orientação que geram a confiança que as crianças necessitam, em uma ação que mostra impedimentos e aponta outras direções. Não é somente dizer "não" o tempo todo, mas apontar o que é possível. Tampouco é simples saber exercer a autoridade necessária sem ser autoritário, pois a autoridade se fundamenta, segundo E. Laurent, sobre o que é autorizado e não sobre o que é proibido.
Dar limites é poder ensinar a conviver com a frustração e adiar a satisfação, pois o convívio fora do lar protegido requer este saber, ou seja, fortalecer-se para enfrentar as dificuldades que a realidade impõe. Uma criança que reina em sua casa, sempre atendida em tudo o que quer, terá dificuldades em aceitar restrições, normas e conviver no coletivo escolar.
Tanto na clínica quanto nas escolas recebemos constantes queixas de agressividade infantil, que entre outros, é um sintoma que mostra uma mensagem alterada de reconhecimento e um pedido de que o ambiente os contenha.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista