sexta-feira, 21 de maio de 2021

NOSSA SUBJETIVIDADE INFANTIL

 

                                     

O nascimento em si é uma crise primordial que se apresenta ao psiquismo, onde se instala a marca de uma relação biológica interrompida.

A placenta como uma parte de si que perde ao nascer, assim como o seio materno em sua função de corte, simbolizam o "objeto perdido", instauram um vazio, um buraco a ser preenchido de um objeto jamais reencontrado e sempre substituído.

Jacques Lacan, psiquiatra e psicanalista fala de um reencontro com o signo de uma repetição impossível, como a busca incessante no "Outro" do que falta em nós mesmos. 

Nossa subjetividade gira em torno desta falta e o que fazemos com ela.

De acordo com Sigmund Freud, ocorre uma perda da libido que induz o  sujeito a buscar fora de si mesmo uma completude. Podemos pensar no mal estar da civilização quando diz que o prazer que se busca nunca será completo, pois sempre faltará algo.  

Isto nos remete ao nosso mundo contemporâneo com a ilusão do corpo/imagem perfeita ou da “felicidade” total ofertada pelo mercado, mas nunca alcançada completamente, somente nos primórdios do nascimento.                                                       

Neste sentido, a falta é o que move nosso desejo e nos desafia diante da vida.                        

                           
                                        Ana Lucia Esteves. Psicanalista/Psicóloga

 

                                         

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Consultoria

INCLUSÃO: ASSESSORIA ESCOLAR


 
                                                                                                            Imagem: M. Boyayan
                            

    Suporte metodológico no autismo, psicose e dificuldades do aluno na aprendizagem, linguagem, humor, afetos e comportamento.

    A escola para além da transmissão de conhecimento cumpre a função importante de oferecer espaço de identificação social, na construção dos vínculos infantis e inserção cultural. Neste contexto é que vai acontecer todo processo de aprendizagem, envolvendo os aspectos cognitivos, psicomotores e psíquicos.

    A educação tem grande importância na construção da subjetividade infantil. Depois da família, a escola é o primeiro coletivo onde a criança se defronta com seus pensamentos, corpo e sentimentos próprios na socialização. Favorece a implicação do aluno nas produções de conhecimento, relações afetivas do coletivo escolar e  suas dificuldades.

    O professor é parte importante deste processo com suas expectativas, frustrações e investimento emocional, que necessitam ser acolhidos e reconhecidos na atuação pedagógica inclusiva. Não é simples para o professor deparar-se com os seus próprios limites e dificuldades, quando se encontra com os empecilhos na aprendizagem e comunicação de seus alunos, além do suporte pedagógico na orientação familiar.                                                          

    Cada aluno é um mundo, uma história com marcas e identificações construídas através do adulto, e portanto, com uma relação singular com o saber. Neste sentido, não só o reconhecimento dos défcits é importante, mas também das habilidades e interesses que auxiliem a criar uma metodologia específica para o aluno, que o envolva no processo de aprendizagem e socialização.



Ana Lucia Esteves - Psicanalista/Psicóloga



terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

 

                            O ESPELHO NA DEMÊNCIA



Com o avanço das perdas cognitivas de memória, percepção e representação simbólica das coisas e pessoas em seu cotidiano, a pessoa com um quadro de demência se encontra em um desamparo e dependência de um outro que o reconheça e localize sempre que possível.

É como uma desconstrução da estrutura  psíquica, onde o esvaziamento do sentido das experiências cotidianas e da noção de tempo vão se perdendo como se fosse uma parte de si mesmo fora de alcance. Perda gradual da própria identidade, chegando a não reconhecer sua própria imagem no espelho e apontar seu EU como um outro, situação que ocorre com certa frequência no Alzheimer, como recusa deste desencontro consigo mesmo.

Esta desconexão com a própria imagem no espelho na demência revela o desamparo que nos remete a constituição primordial do psiquismo humano no bebê, onde o outro que cuida é seu primeiro espelho, neste olhar que vem de fora reconhecendo para ele sua própria imagem inaugurando a noção do corpo.

Então além do espelho refletir sua imagem física, ele também te devolve a ideia que você faz de você mesmo, de qual é sua imagem perante o outro, que reflete a visão dos familiares, do grupo do trabalho, de um relacionamento afetivo sobre você. Na literatura o conto de Guimarães Rosa, " O espelho" diz: "O espelho, são muitos".

Uma essência para além da imagem, que mesmo diante da perda gradual da identidade do EU e do registro simbólico na demência, pode resgatar algo nas trocas subjetivas com o outro, sentindo-se menos perdido.

O familiar e/ou cuidador representa para a pessoa com demência, um importante canal de referência e reconhecimento, investindo no olhar e ações que possibilitem surgir traços de subjetividade e lampejos de lucidez. Conhecer melhor os sintomas da demência e construir estratégias de intervenção auxiliam a duas partes.

O idoso deve poder ter acesso ao espelho e ser reconhecido neste com palavras e gestos desde o início do processo demencial, e mesmo nos casos mais avançados, a não ser que esteja em crise, porque ainda tem um corpo capaz de sensações, difíceis de ser representados pela linguagem. É importante não afastar a possibilidade de que ainda se represente de alguma forma, nesta relação de identificação com a imagem, atenuando a progressão das perdas. Quando, por exemplo, vê a imagem da própria mãe no espelho, no lugar dele é como um apaziguamento, um encontro, que a construção delirante possibilitou que ocorresse. Ou uma resposta agressiva ao sentir-se perseguido pela própria imagem ao ver-se como um estranho no espelho, anulado, a mercê do outro invasivo ataca para se defender. É difícil presenciar falas sem sentido, mas é um recurso que temos para apaziguá-los psiquicamente, e se pudermos participar do delírio reconhecendo e resolvendo sua angústia, será ainda melhor.

Apesar de todas as perdas nessa desestruturação, esquecendo muitas vezes até do nome próprio, há um sujeito do inconsciente revelado nos pequenos gostos, na raiva, lágrimas e sorrisos que ainda podemos precipitar e compartilhar.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista



sábado, 9 de janeiro de 2021


 

LIMITES NA RELAÇÃO PAIS/FILHOS



A colocação de limites é essencial ao desenvolvimento infantil.
Não se trata somente de fazer obedecer, são pontos de orientação que geram a confiança que as crianças necessitam, em uma ação que mostra impedimentos e aponta outras direções. Não é somente dizer "não" o tempo todo, mas apontar o que é possível. Tampouco é simples saber exercer a autoridade necessária sem ser autoritário, pois a autoridade se fundamenta, segundo E. Laurent, sobre o que é autorizado e não sobre o que é proibido.
Dar limites é poder ensinar a conviver com a frustração e adiar a satisfação, pois o convívio fora do lar protegido requer este saber, ou seja, fortalecer-se para enfrentar as dificuldades que a realidade impõe. Uma criança que reina em sua casa, sempre atendida em tudo o que quer, terá dificuldades em aceitar restrições, normas e conviver no coletivo escolar.
Tanto na clínica quanto nas escolas recebemos constantes queixas de agressividade infantil, que entre outros, é um sintoma que mostra uma mensagem alterada de reconhecimento e um pedido de que o ambiente os contenha.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista

         "O LUTO E DEPOIS.."


A perda de alguém amado, infelizmente experiência de mais de 500 mil famílias no Brasil com a pandemia atual. Corte profundo e repentino sem a possibilidade do ritual de despedida, quando dividimos a dor da perda junto a familiares e amigos. 

A experiência diante da morte e da finitude move intensa angústia, ferindo nossa onipotência quando não há o que fazer, a não ser aceitar o limite da vida do outro que amamos. Ao mesmo tempo também nos deparamos com o tempo de nossa vida que nos remete aos ideais, fantasias e desejos muitas vezes ainda não alcançados.

É importante em nossa sociedade acelerada, poder respeitar o nosso próprio tempo de expressão da dor, seja no choro, tristeza ou afastamento social.

Neste período de elaboração do luto, vamos aceitando aos poucos a perda da pessoa amada, mas sempre recuperando um traço, uma marca de vida que tenha nos deixado, um jeito, um desejo, um gosto que assimilamos para nós e que levamos para nossa vida. Quando buscamos e inventamos com a perspectiva do tempo nossos próprios gostos e vontades, reiniciando um outro ciclo de vida com outras trocas afetivas.

O individualismo da atualidade, na verdade não nos favorece. É  uma ilusão prescindir de SER com o outro, pois nossa vida sempre se constitui desde o nascimento nas relações de afeto com as pessoas, dentro e fora do núcleo familiar, direcionando o sentido de nossa vida.

Poder chorar, falar o que sentimos e pensamos com alguém, com um familiar, um terapeuta ou um amigo para poder escutar-se e fortalecer-se nas escolhas e caminhos, via reinícios.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista                                                                                                                                   

terça-feira, 28 de julho de 2020

DEPRESSÃO: MAL-ESTAR SOCIAL DA ATUALIDADE




Depressão: mal-estar social da atualidade           

"Nem a juventude sabe o que pode,nem a velhice pode o que sabe."  José Saramago                                                   

A maneira como entendemos e tratamos a “depressão” muda dependendo da época histórica em que vivemos. Durante anos, o mal-estar e as tristezas cotidianas atravessavam algumas fases difíceis de nossa vida, que, com o tempo, apoio familiar e vida social, eram ultrapassadas.

No entanto, nos anos 90 mudou radicalmente a forma de diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico, sob o protesto de profissionais e associações no campo da saúde mental. As fases de tristeza, que anteriormente faziam parte do cotidiano, hoje são classificadas pelos manuais psiquiátricos como uma doença mental, transformando o sofrimento psíquico em uma falha no cérebro a ser remediada.
De 182 classes de distúrbios nos anos 70, com o último manual (DSM-5) chegamos a mais de 376 patologias clínicas. Para cada nova patologia, é aberto um novo mercado na indústria farmacêutica para dar conta da demanda.
O afeto depressivo sempre foi considerado um estado emocional, e não uma entidade clínica, resultando na atualidade em uma pandemia diagnóstica a nível mundial, nos tornando uma grande massa de “depressivos”.
O sofrimento psíquico é aliviado quimicamente de forma rápida, e pouco se trabalha a história subjetiva da pessoa em sua complexidade para encontrar outras saídas que não seja a depressiva. A medicação é necessária para aliviar o sofrimento em vários casos, mas não deve ser uma solução em si mesma, ministrada de forma indiscriminada para normatizar o mal-estar na sociedade de consumo contemporânea.
É uma epidemia diagnóstica porque acontece a generalização de alguns sintomas  comuns aplicada a uma grande maioria de pessoas, além de dificultar o diagnóstico diferencial quando o afeto depressivo faz parte de um quadro patológico. A depressão não é uma doença mental, mas um sintoma social, visto como uma falha isolada e individual, mas, na verdade, é efeito das mudanças sociais, familiares, tecnológicas e econômicas.
A ética da psicanálise não compartilha das práticas que fazem da depressão um universal, pois a clínica visa a singularidade e a responsabilidade da pessoa em suas questões. O mal-estar psíquico faz parte da vida em muitos momentos, e, segundo o psicanalista J. Lacan, a única coisa da qual o sujeito pode ser culpado é de haver cedido de seu desejo.
A epidemia diagnóstica da depressão que vivemos na atualidade está associada diretamente aos aspectos ideológico e de mercado ao sedar a subjetividade. A vida moderna não tem mais suas normas estabelecidas pela autoridade dos pais da geração passada, mas na pressão social da busca de sucesso, felicidade e evitação do fracasso, ditadas pelo mercado de consumo, da imagem e da competitividade. Temos cultivado a autossuficiência e o individualismo nessa busca em um estresse diário na falta de tempo e de prazer, que nos frustra e gera angústia.
No estado depressivo, o corpo se desregula nas dores, fadiga, pouca energia, sensibilidade aumentada, etc. É como se estivéssemos na margem de um rio que, sozinhos, tememos navegar. Ocorre o afastamento dos vínculos sociais, sentimento de inadequação, vergonha e culpa por seu recolhimento.
Por que razão uma pessoa entra em um estado depressivo, com o afastamento das relações sociais, de trabalho e familiar? Talvez uma renúncia interna, uma recusa a conviver com os desafios da atualidade, sacrificando seus afetos e desejos que não encontram espaço de expressão e troca socialmente. O estado depressivo pode ser entendido como um basta a essa engrenagem social, um recuo autorizado, uma recusa e um apagamento do desejo.
Nesse sentido, o abuso dos antidepressivos pode legitimar a depressão como um modo de vida, sem que a pessoa se implique em seu sofrimento, como uma reação possível à inconsistência do mundo contemporâneo. Não se trata de preguiça, mas de um sentimento que não engana, a angústia, que precisa ser acolhida e ouvida para ser ultrapassada.
A tristeza como afeto depressivo revela um desamparo e uma impotência difícil de expressar em palavras. É uma abstenção, um “não dizer” de si, em um recolhimento perante a vida. O preconceito social segrega e transforma uma dificuldade emocional em fraqueza e inibição, dificultando pedir ajuda para falar de si com um amigo, familiar ou terapeuta.
Os extremos e o incompreensível que temos vivido com a pandemia nos fez ficar em suspenso, e, com o distanciamento social a tendência é um aumento importante dos estados depressivos, no temor do retorno, e de toda a tensão acumulada e pouco sublimada no distanciamento social. Seria importante que, para além do tratamento medicamentoso, houvesse espaço para poder colocar em palavras o sofrimento singular vivenciado, para poder ser resignificado, ao dar-se a chance da vida ser melhor vivida.
É importante não nos restringirmos ao diagnóstico de “depressão” para nos definir como pessoa. Somos mais do que um rótulo, somos desejos, sonhos, fantasias e afetos, que, ao serem compartilhados, dão sentido à nossa vida.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista
            www.psicanalisenasaudemental.com.br