sábado, 9 de janeiro de 2021


         "O LUTO E DEPOIS.."


A perda de alguém amado, infelizmente experiência de mais de 500 mil famílias no Brasil com a pandemia atual. Corte profundo e repentino sem a possibilidade do ritual de despedida, quando dividimos a dor da perda junto a familiares e amigos. 

A experiência diante da morte e da finitude move intensa angústia, ferindo nossa onipotência quando não há o que fazer, a não ser aceitar o limite da vida do outro que amamos. Ao mesmo tempo também nos deparamos com o tempo de nossa vida que nos remete aos ideais, fantasias e desejos muitas vezes ainda não alcançados.

É importante em nossa sociedade acelerada, poder respeitar o nosso próprio tempo de expressão da dor, seja no choro, tristeza ou afastamento social.

Neste período de elaboração do luto, vamos aceitando aos poucos a perda da pessoa amada, mas sempre recuperando um traço, uma marca de vida que tenha nos deixado, um jeito, um desejo, um gosto que assimilamos para nós e que levamos para nossa vida. Quando buscamos e inventamos com a perspectiva do tempo nossos próprios gostos e vontades, reiniciando um outro ciclo de vida com outras trocas afetivas.

O individualismo da atualidade, na verdade não nos favorece. É  uma ilusão prescindir de SER com o outro, pois nossa vida sempre se constitui desde o nascimento nas relações de afeto com as pessoas, dentro e fora do núcleo familiar, direcionando o sentido de nossa vida.

Poder chorar, falar o que sentimos e pensamos com alguém, com um familiar, um terapeuta ou um amigo para poder escutar-se e fortalecer-se nas escolhas e caminhos, via reinícios.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista                                                                                                                                   

terça-feira, 28 de julho de 2020

DEPRESSÃO: MAL-ESTAR SOCIAL DA ATUALIDADE




Depressão: mal-estar social da atualidade           

"Nem a juventude sabe o que pode,nem a velhice pode o que sabe."  José Saramago                                                   

A maneira como entendemos e tratamos a “depressão” muda dependendo da época histórica em que vivemos. Durante anos, o mal-estar e as tristezas cotidianas atravessavam algumas fases difíceis de nossa vida, que, com o tempo, apoio familiar e vida social, eram ultrapassadas.

No entanto, nos anos 90 mudou radicalmente a forma de diagnosticar e tratar o sofrimento psíquico, sob o protesto de profissionais e associações no campo da saúde mental. As fases de tristeza, que anteriormente faziam parte do cotidiano, hoje são classificadas pelos manuais psiquiátricos como uma doença mental, transformando o sofrimento psíquico em uma falha no cérebro a ser remediada.
De 182 classes de distúrbios nos anos 70, com o último manual (DSM-5) chegamos a mais de 376 patologias clínicas. Para cada nova patologia, é aberto um novo mercado na indústria farmacêutica para dar conta da demanda.
O afeto depressivo sempre foi considerado um estado emocional, e não uma entidade clínica, resultando na atualidade em uma pandemia diagnóstica a nível mundial, nos tornando uma grande massa de “depressivos”.
O sofrimento psíquico é aliviado quimicamente de forma rápida, e pouco se trabalha a história subjetiva da pessoa em sua complexidade para encontrar outras saídas que não seja a depressiva. A medicação é necessária para aliviar o sofrimento em vários casos, mas não deve ser uma solução em si mesma, ministrada de forma indiscriminada para normatizar o mal-estar na sociedade de consumo contemporânea.
É uma epidemia diagnóstica porque acontece a generalização de alguns sintomas  comuns aplicada a uma grande maioria de pessoas, além de dificultar o diagnóstico diferencial quando o afeto depressivo faz parte de um quadro patológico. A depressão não é uma doença mental, mas um sintoma social, visto como uma falha isolada e individual, mas, na verdade, é efeito das mudanças sociais, familiares, tecnológicas e econômicas.
A ética da psicanálise não compartilha das práticas que fazem da depressão um universal, pois a clínica visa a singularidade e a responsabilidade da pessoa em suas questões. O mal-estar psíquico faz parte da vida em muitos momentos, e, segundo o psicanalista J. Lacan, a única coisa da qual o sujeito pode ser culpado é de haver cedido de seu desejo.
A epidemia diagnóstica da depressão que vivemos na atualidade está associada diretamente aos aspectos ideológico e de mercado ao sedar a subjetividade. A vida moderna não tem mais suas normas estabelecidas pela autoridade dos pais da geração passada, mas na pressão social da busca de sucesso, felicidade e evitação do fracasso, ditadas pelo mercado de consumo, da imagem e da competitividade. Temos cultivado a autossuficiência e o individualismo nessa busca em um estresse diário na falta de tempo e de prazer, que nos frustra e gera angústia.
No estado depressivo, o corpo se desregula nas dores, fadiga, pouca energia, sensibilidade aumentada, etc. É como se estivéssemos na margem de um rio que, sozinhos, tememos navegar. Ocorre o afastamento dos vínculos sociais, sentimento de inadequação, vergonha e culpa por seu recolhimento.
Por que razão uma pessoa entra em um estado depressivo, com o afastamento das relações sociais, de trabalho e familiar? Talvez uma renúncia interna, uma recusa a conviver com os desafios da atualidade, sacrificando seus afetos e desejos que não encontram espaço de expressão e troca socialmente. O estado depressivo pode ser entendido como um basta a essa engrenagem social, um recuo autorizado, uma recusa e um apagamento do desejo.
Nesse sentido, o abuso dos antidepressivos pode legitimar a depressão como um modo de vida, sem que a pessoa se implique em seu sofrimento, como uma reação possível à inconsistência do mundo contemporâneo. Não se trata de preguiça, mas de um sentimento que não engana, a angústia, que precisa ser acolhida e ouvida para ser ultrapassada.
A tristeza como afeto depressivo revela um desamparo e uma impotência difícil de expressar em palavras. É uma abstenção, um “não dizer” de si, em um recolhimento perante a vida. O preconceito social segrega e transforma uma dificuldade emocional em fraqueza e inibição, dificultando pedir ajuda para falar de si com um amigo, familiar ou terapeuta.
Os extremos e o incompreensível que temos vivido com a pandemia nos fez ficar em suspenso, e, com o distanciamento social a tendência é um aumento importante dos estados depressivos, no temor do retorno, e de toda a tensão acumulada e pouco sublimada no distanciamento social. Seria importante que, para além do tratamento medicamentoso, houvesse espaço para poder colocar em palavras o sofrimento singular vivenciado, para poder ser resignificado, ao dar-se a chance da vida ser melhor vivida.
É importante não nos restringirmos ao diagnóstico de “depressão” para nos definir como pessoa. Somos mais do que um rótulo, somos desejos, sonhos, fantasias e afetos, que, ao serem compartilhados, dão sentido à nossa vida.

Ana Lucia Esteves/Psicanalista
            www.psicanalisenasaudemental.com.br

quarta-feira, 25 de março de 2020

VIVER O CAOS TEMPORÁRIO, SEM NOS PERDERMOS JUNTO A ELE


                                                    imagem:M. Boyayan

Viver o caos temporário, sem nos perdermos junto a ele

A pandemia vai passar e o desafio que nos impõe é atravessá-la sustentando as incertezas, a sensação de estar perdido, distanciado socialmente, neste corte abrupto e inesperado em nossas vidas. O tempo e o espaço coletivos mudaram, assim como a maneira que vamos escolher para nos relacionar com este caos, sem nos perdermos junto a ele.

De repente, tudo saiu do seu lugar e nos percebemos impotentes diante das informações desencontradas na crise institucional e econômica, acreditando que, quanto mais souber, mais garantias vai ter. Apesar de todo este cenário de incertezas, as medidas para a contenção do vírus devem ser tomadas, e espero que também sejam em direção à população de baixa renda.

Lá fora, as ruas estão vazias, o comércio está fechado, o lazer social está cancelado e a distância física e o medo de uma doença invisível se apresentam. A distância física entre as pessoas vai certamente dificultar a transmissão, mas também restringir o convívio afetivo. O excesso de informação e a ansiedade por soluções nos assusta e alimenta o medo infundado, podendo gerar pânico,  em um terreno fértil de muitas incertezas.

O tempo e o espaço coletivos foram alterados de forma repentina e em um movimento intenso. Um confinamento que não é por punição neste caso, mas por prevenção da transmissão do vírus, que altera o espaço das relações coletivas. É uma mudança da nossa medida do tempo, contrapondo a aceleração que até então vivíamos de forma autossuficiente, estimulados pelo mercado e sem tempo para os afetos. A lógica do consumo e da ciência contemporânea “coisifica” a vida na busca da satisfação em um consumo sem limites – a busca da felicidade, do prazer e a ilusão de uma satisfação que nunca será alcançada, pois em nossa constituição subjetiva sempre vai faltar algo. A falta primordial da separação do corpo materno e todas as outras que durante a vida temos que ultrapassar para nos localizarmos como sujeitos.

A sensação que nos invade de estarmos sós e perdidos nos remete ao desamparo infantil. Quando desprotegidos, precisávamos do outro para nos fazer viver. Hoje, precisamos do outro para dividir nossas ações e desejos, reconhecendo-nos e construindo nosso modo de viver. É difícil localizar em nós próprios qual o sentido subjetivo da vida que levamos, o que temos escolhido e as ações que fazemos para ir de encontro a nossos desejos. Uma das queixas recorrentes que encontramos na clínica é o sofrimento de solidão permanente, mesmo estando no meio laboral, social ou familiar.

O lado positivo desta crise é a possibilidade de nos relacionarmos coletivamente, mesmo que à distância. Não devemos nos fazer sozinhos neste momento, precisamos alterar a rotina, fazer escolhas e reativar nossos desejos, repensando nosso mundo particular e nossa relação com as coisas e as pessoas. Agora começamos a ver nossos vizinhos em uma colaboração à distância, os conflitos familiares suspensos no chamado e no oferecimento de ajuda, o uso da tecnologia para nos vermos e para conversarmos. A integração nos faz caminhar e sentir acompanhados nesta travessia, pois o isolamento temporário não precisa ser solitário. O que atrapalha é um imaginário inflado, onde acumulamos muitos pensamentos e questões que ainda não temos respostas – precisamos aprender a usar nosso tempo a nosso favor. Querer saber do futuro hoje é muito difícil. Com tantas perdas e incertezas, é melhor investir no agora, no hoje. Voltar-se para o próprio corpo, nos percebendo melhor, quando podemos diferenciar cansaço de um mal-estar geral ou estado depressivo, quando nos exercitamos e sentimos nossa energia e um esvaziamento dos pensamentos que alimentam nosso mal-estar.
É muito importante agora que centremos nossa atenção em nós mesmos, neste distanciamento que pode nos fazer viver uma experiência de amadurecimento e mudança de valores e comportamento. Quando a esfera pública invade a particularidade de cada um de nós, quando nos deixamos engolir pela crise, deixamos de nos responsabilizar pela nossa existência e entramos em um barco desgovernado, onde podemos perder a referência  de quem somos e o que desejamos para nós nesta vida.

"Vosso mau amor de vós mesmos faz do isolamento um cativeiro."
(Nietzsche)

Ana Lucia Esteves

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O QUE A DEPRESSÃO TEM A VER COM O ALZHEIMER?

O QUE A DEPRESSÃO TEM A VER COM O ALZHEIMER?


                                                                                                  Imagem: m. boyayan

A depressão está associada à demência de Alzheimer quando se apresenta como um fator de risco para a aquisição da doença. Também quando geralmente as pessoas com demência em fase inicial são rotuladas de forma equivocada como depressivas. Ou ainda quando o estado depressivo acontece junto ao Alzheimer.

No estado depressivo, a tristeza, a falta de energia, prazer e dificuldades com a memória estariam associadas a questões conflitivas do sujeito, relacionadas ao contexto de sua história de vida. É importante ressaltar que a depressão não é uma consequência natural do envelhecimento. Uma imagem de si negativa invade o EU, que fragilizado defende-se de uma realidade cotidiana difícil de ser enfrentada, contra a qual o sujeito procura abrigo, distanciando-se das relações interpessoais, de trabalho, familiar e social.

Na ótica da psicanálise, a depressão não é uma entidade clínica, mas uma  posição subjetiva do sujeito diante das escolhas relativas ao seu desejo e afetos, que se manifesta em vários contextos clínicos, inclusive no Alzheimer. Uma forma de ser que evita o encontro de si mesmo com a inconsistência da realidade contemporânea onde as inibições, medos, perdas e adversidades do mundo atual encontram refúgio em um estado depressivo, amortecido pela medicação. Uma retenção de energia sem deslocamento afetivo,  desconexão com as relações do ambiente, um mal-estar psíquico que angustia e aparece condensado na significante "depressão" que generaliza e legitima um modo de vida nos tempos atuais.

A dificuldade de memória, a falta de atenção, dificuldades do raciocínio e o humor triste no estado depressivo se confundem com os estágios iniciais do Alzheimer, pois os sintomas são parecidos, causando uma grande dificuldade no diagnóstico diferencial entre a demência e a depressão. É importante que o diagnóstico seja realizado, pois, sendo reconhecido como um estado depressivo, há tratamento e consequente diminuição dos sintomas demenciais. Se, no entanto, tratar-se de um estágio inicial de Alzheimer, o estado depressivo, se não identificado e tratado, pode acelerar a progressão da demência.                                                                         

Além da demência poder se apresentar com sintomas depressivos, também pode ocorrer somente o estado depressivo com sintomas cognitivos associados. As alterações cognitivas relativas à memória, atenção e raciocínio na depressão ocorrem de forma menos intensa  e são mais flutuantes; já no Alzheimer ocorrem perdas cognitivas mais intensas e a frequência é constante. Os esquecimentos, por exemplo, podem fazer muitas pessoas acreditarem que estão com início de Alzheimer, mas ocorrem também no estado depressivo, que, pela falta de atenção, acaba por gerar esquecimento.
Demência com sintomas depressivos acontece quando os sintomas se sobrepõem, quando Alzheimer e depressão caminham juntos, no decorrer da doença. Ou seja, quando a posição depressiva do sujeito se manifesta no quadro demencial, acelerando as perdas cognitivas e relacionais, dificultando o diagnóstico clínico. Se não identificado a tempo, o estado depressivo pode prolongar-se e chegar a se tornar grave. É importante um diagnóstico e intervenção precoces, pois, com tratamento e diminuição dos sintomas depressivos, a demência desenvolve-se mais lentamente, desacelerando a progressão da doença.

Na demência de Alzheimer, podemos dizer que o estado depressivo gerado pelas perdas,  finitude da vida e esvaziamento dos vínculos afetivos afasta cada vez mais a pessoa do campo das relações simbólicas e acelerando a demência. Apesar de todas as perdas na demência, podemos afirmar que há psiquismo ainda, ou seja, há um sujeito do inconsciente que surge no imaginário das lembranças do  passado, nas crises, nos lapsos de lucidez ou no desejo de ser amparado no desamparo em que se encontra.

Ana Lucia Esteves
Psicanalista/Psicóloga-CRP:06/23285

quinta-feira, 18 de julho de 2019

O infantil em nós!

  Quando repetimos no presente, comportamentos que carregam nossos afetos mais íntimos das vivências do passado.


                                                                                                                              imagem:M. Boyayan