quinta-feira, 20 de junho de 2019
quarta-feira, 1 de maio de 2019
A SOLITÁRIA LUTA DO CUIDADOR DO PORTADOR DE ALZHEIMER, COM PRECÁRIO APOIO FAMILIAR E DO ESTADO
"A solitária luta do cuidador do portador de Alzheimer, com precário apoio familiar e do Estado"
A longevidade traz um aumento do número de idosos dependentes física e psiquicamente, e cada vez mais pessoas passam a assumir a posição de cuidadores formais ou informais. A história de vida na convivência familiar e social vai determinar o que faz a pessoa se assumir como cuidador.
São 24 horas de cuidado ao idoso, seja por um cuidador formal em atividade profissional remunerada, ou informal quando geralmente um dos membros da família assume os cuidados sem remuneração. Estes realizam jornada dupla de trabalho e muitas vezes abandonam emprego ou estudos para poder atender ao intenso cuidado diário. A maior parte dos cuidadores são mulheres com mais de 50 anos que na maior parte das vezes sozinhas e com escasso apoio familiar e do Estado, responsabilizam-se integralmente por uma pessoa com demência, transformando-se no principal agente de convívio e assistência.
Com a progressão da demência apesar de todo cuidado e afeto nos vemos diante de um sujeito diferente do que era antes do Alzheimer, que apresenta impulsos libidinais, alheamento ou agressividade que surpreendem o cuidador em sua difícil rotina. As perdas progressivas que acometem as pessoas com demência se refletem no cuidador, que convive e testemunha diariamente uma pessoa querida perder-se de si mesma dentro de sua própria casa, até a perda total de sua identidade e mobilidade física.
A sobrecarga física e psíquica do cuidador de um portador de Alzheimer é intensa, renunciando para tanto às suas necessidades biopsicossociais em benefício de quem cuida. O estresse físico, emocional e a restrição nos vínculos compromete a vida de quem cuida, e apesar de todo esforço pode comprometer a relação do cuidar.
É difícil para o cuidador manter sua estabilidade emocional frente a um cotidiano tão árido e estressante, onde o trabalho e os afetos se misturam produzindo conflito e exaustão de ambos os lados. Sentimentos de culpa, medo, raiva e desamparo são vividos no cotidiano pelo cuidador.
Alguns mecanismos surgem no enfrentamento da perda e da proximidade com a morte: a vitimização, a infantilização do idoso, o sacrifício como ato de amor e frequentemente estados depressivos.
A angústia do cuidador também surge no luto antecipado onde "o Alzheimer" ( a doença) personifica o medo, a raiva, a culpa e impotência frente às limitações que se impõe e a finitude que se apresenta.
Familiares próximos por medo ou negligência acabam por delegar os cuidados a terceiros ou sobrecarregam um membro da família. Na maior parte dos casos o efeito de uma dinâmica familiar adoecida em suas relações intersubjetivas, obstaculiza inconscientemente os vínculos, com a repetição de mágoa e ressentimentos pouco elaborados. Também é importante intervir na dinâmica subjetiva familiar com informação e apoio técnico profissional.
Promover autonomia considerando o potencial funcional e subjetivo que o idoso ainda possui, na tentativa de retardar o progresso da doença, poderia ocorrer com maior qualidade se houvesse um apoio efetivo aos cuidadores. Deveria haver Informação sobre a doença, prevenção, apoio técnico em como lidar com as alterações de humor, comportamento e comunicação do portador de Alzheimer. É urgente proporcionar um espaço de expressão e escuta dos temores, angústias e dúvidas do cuidador, do idoso e seu núcleo familiar. Assim terá condições de manejar as crises, resolver conflitos, escutar, estimular e acolher a angústia do idoso.
A tendência cada vez maior na atualidade é suportar sozinho a dor psíquica, em um individualismo que obstrui as relações interpessoais, que seria um dos caminhos para a saída do sofrimento mental.
Ressalto a urgência em cuidar do adoecimento psíquico para além do adoecimento físico, que não tenha como única opção o consumo de medicamentos.
Cabe ao Estado a responsabilidade de criar e concretizar políticas públicas relativas as questões psicossociais do idoso. A gestão da Política de Atenção à Pessoa Idosa não deve ser resolvida no âmbito privado, da comunidade ou da filantropia. É diante das necessidades específicas desta população que deve-se oferecer serviços e programas multiprofissionais para atender o cidadão em sua região.
Um direito negligenciado, que deve corresponder às necessidades do cuidador, idoso e de seu núcleo familiar, esperando atuação dos gestores da saúde em um atendimento necessário e urgente.
Ana Lucia Esteves
Psicanalista/Psicóloga
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
domingo, 20 de maio de 2018
quinta-feira, 27 de outubro de 2016
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
quinta-feira, 23 de abril de 2015
LIMITES
LIMITES NA RELAÇÃO ENTRE PAIS E FILHOS
“O fundamento da autoridade é poder dizer sim” - Eri Laurent
Na atualidade, os pais queixam-se do comportamento voluntarioso, agitado
e agressivo dos filhos. Estes, por sua vez, são nomeados como problemáticos e
sem limites. As relações sociais e culturais que a criança vivencia são
diferentes da época de seus pais. Hoje a família apresenta novas configurações,
novos arranjos e diferentes formas de convívio no tempo e espaço contemporâneo.
As leis que regem a convivência têm se diluído, faltando referência e
consistência nas palavras e ações do adulto na relação com as crianças e
jovens. Efeito do mundo tecnológico e globalizado, que tem provocado mudanças
nos valores e padrões de comportamento. Com a pluralidade de posturas e
escolhas é difícil definir o que pode ou não pode na educação dos filhos.
Observamos um excesso como resposta, que vai da superproteção ao desamparo.
Vivenciamos uma indefinição de papéis sociais e uma destituição das
funções familiares, onde a diluição da
autoridade nas leis que conduzem as referências identificatórias se perdem. É
na intenção de fazer o melhor que os pais igualam-se aos filhos, na posição de
"amigos", em uma relação de simetria, perdendo sua função na
transmissão da subjetividade infantil. A
falta de tempo e a busca de satisfação imediata na atualidade reflete-se na
tendência em satisfazer os filhos em todas as suas vontades, em oposição às
restrições que viveram quando crianças. Segundo Rousseau, "...não se deve
conceder à criança porque pede, mas porque precisa. Foi porque precisou que
começou a falar".
A colocação de limites é essencial ao desenvolvimento infantil. Não se
trata somente de fazer obedecer, são pontos de orientação que geram a confiança
que as crianças necessitam, em uma ação que mostra impedimentos e aponta outras
direções. Não é somente dizer "não" o tempo todo, mas apontar o que é
possível. Tampouco é simples saber exercer a autoridade necessária sem ser
autoritário, pois a autoridade se fundamenta, segundo E. Laurent, sobre o que é
autorizado e não sobre o que é proibido.
Dar limites é poder ensinar a conviver com a frustração e adiar a satisfação, pois o convívio fora do lar protegido requer este saber, ou seja, fortalecer-se para enfrentar as dificuldades que a realidade impõe. Uma criança que reina em sua casa, sempre atendida em tudo o que quer, terá dificuldades em aceitar restrições, normas e conviver no coletivo escolar.
Dar limites é poder ensinar a conviver com a frustração e adiar a satisfação, pois o convívio fora do lar protegido requer este saber, ou seja, fortalecer-se para enfrentar as dificuldades que a realidade impõe. Uma criança que reina em sua casa, sempre atendida em tudo o que quer, terá dificuldades em aceitar restrições, normas e conviver no coletivo escolar.
Tanto na clínica quanto nas escolas recebemos constantes queixas de agressividade
infantil, que entre outros, é um sintoma que mostra uma mensagem alterada de
reconhecimento e um pedido de que o ambiente os contenha.
Acredito que muitos pais que se apresentam perdidos na educação dos filhos possuam o bom senso de como devem agir, mas falta confiança em si próprios para sustentar seu lugar e sua palavra na relação com as crianças. Temem ser repressores, traumatizá-los ou não conseguem suportar ver seus filhos insatisfeitos. A tentativa de atender a todas as demandas infantis, se torna uma missão impossível, na medida em que por mais que tentem não há satisfação que se aplaque a não ser com o encontro do limite que a própria realidade impõe. A vida é feita de limites a serem respeitados e frustrações a serem ultrapassadas.
A identificação na infância com o mundo adulto vai se construir nas experiências do cotidiano apresentadas e vivenciadas. As crianças e os jovens precisam deste saber, amor e confiança, pois os pais ou responsáveis são como um espelho onde os filhos se refletem e começam a modelar seus passos.
A identificação na infância com o mundo adulto vai se construir nas experiências do cotidiano apresentadas e vivenciadas. As crianças e os jovens precisam deste saber, amor e confiança, pois os pais ou responsáveis são como um espelho onde os filhos se refletem e começam a modelar seus passos.
Ana Lucia Esteves
Psicanalista
Psicanalista
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